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O monitoramento em agosto

Saquinhos de passarinho secando no varal entre uma amostragem e outra. Durante o anilhamento as aves são colocadas dentro de saquinhos de algodão limpos enquanto aguardam para serem analisadas, anilhadas e soltas, assim ficam menos estressadas e mais seguras. No OAMa nos nunca reutlizamos o saquinho antes de higieniza-los devidamente!

Neste mês conseguimos dar continuidade ao monitoramento mensal da nossa estação BOA1, em Bocaina de Minas, MG. Já em PORT, não foi possível ajustar a logística sem colocar em risco o isolamento social dos moradores da área, o sítio Mata do Sauá, e por isso não houve monitoramento por lá este mês.

Macho de Cigarra-bambu (Haplospiza unicolor) anilhado durante monitoramento de agosto

Tivemos dois dias agitados no anilhamento de BOA1, totalizando 123 capturas ao longo das duas manhãs. Dentre as 123 capturas, 35 (28%) foram recapturas de indivíduos anilhados em meses anteriores. A cigarra-bambu (Haplospiza unicolor) ainda é, de longe, a espécie mais abundante na nossa amostragem. Só nesses dois dias de anilhamento em agosto foram 44 (36% do total de capturas) novos indivíduos anilhados e 17 recapturas de esforços anteriores. O tiê-preto (Tachyphonus coronatus) foi a segunda espécie mais abundante na amostragem, com 12 novos indivíduos e 5 recapturas. Essas duas espécies juntas representaram 65% de todas as capturas! As demais 25 espécies amostradas tiveram entre 1 e 6 indivíduos capturados, contabilizando novos e recapturas.  

Aves, ciência e conservação 3

Reservamos este espaço de comunicação com você para, mensalmente, falar um pouquinho sobre algum trabalho que conecte aves, ciência e conservação.

Hoje vamos falar do privilégio da longevidade, por intermédio da publicação na sessão “news&views” da revista científica Nature Climate Change, da qual o Dr. Gonçalo Ferraz (membro do nosso conselho científico) é colaborador. No periódico, Ferraz comenta sobre as descobertas do estudo de Thomas Martin e James Mourton publicado na revista Nature Climate Change e explica um pouco do porquê esse estudo é importante para a conservação das espécies. Aqui, a gente tenta compartilhar com você as informações centrais do artigo escrito por Ferraz, publicado originalmente em inglês.

Rabo-branco-de-garganta-rajada (Phaetornis eurynome). Ainda sabemos pouco sobre a longevidade de beija-flores em geral, ou se as características de história de vida destas pequenas aves facilitam ou limitam a resposta das populações à secas cada vez mais frequentes. Fotão clicado por Jorge Lucas Moreira da @BirdsAtlantics.

Entre as incontáveis espécies do planeta, existem as espécies de ciclo rápido e as de ciclo lento. Espécies de ciclo rápido geralmente são menos longevas, se reproduzem mais rápido, com mais frequência, e o giro de indivíduos na população é mais rápido. Espécies de ciclo lento são aquelas que vivem mais, que demoram mais para reproduzir e se reproduzem em menores números. O giro das populações de espécies de ciclo lento é, portanto, mais lento. A teoría e os dados relacionados à ecologia de populações indicam que espécies de giro lento são relativamente mais vulneráveis à extinção do que espécies de giro e reprodução rápida.

As condições ambientais e climáticas têm influência na sobrevivência das esṕécies, pois cada espécie está apta a viver em um habitat e em condições mais ou menos específicas. Algumas mudanças ambientais são extremamente abruptas – como, por exemplo, o desmatamento e queimadas florestais – e não dão tempo de adaptação às novas condições mesmo às espécies mais flexíveis. Já outras acontecem gradualmente com o tempo, permitindo que as espécies mais flexíveis – fisiológica e comportamentalmente – se adaptem.

No contexto das mudanças climáticas, que acontecem em pulso relativamente rápido, mas gradual e não imediato, quais espécies estão mais vulneráveis à extinção? As espécies de maior longevidade e giro lento, ou as espécies que vivem menos, mas têm giro populacional mais rápido?

De acordo com o estudo de Martin e Mourton, as espécies de maior longevidade apresentaram menor mortalidade associada a anos de seca (fator de mudança climática) do que espécies de menor longevidade. O estudo mostra, ainda, que as espécies com maior sobrevivência nos anos de seca foram aquelas que reduziram os esforços em reprodução nesses anos, ou seja, sobreviveram mais e reproduziram menos. Já as espécies que mantiveram os esforços de reprodução mesmo em anos de seca apresentaram maior mortalidade associada a esses anos.

Lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta) no ninho. Arquivo OAMa

Acontece que, nas espécies que vivem mais tempo, os indivíduos podem “se dar ao luxo” de pular um ano de reprodução, deixar para investir em gerar descendentes no ano seguinte, dependendo das condições ambientais, oferta de recurso e afins. Já nas espécies que vivem pouco tempo, os indivíduos nem sempre têm tempo para aguardar as condições mais propícias, assim precisam tentar reproduzir dentro do seu curto “prazo de validade”. Dessa forma, uma maior variação climática, a exemplo da ocorrência de anos de seca mais intensa que o normal, tende a ter impacto menor nas espécies de maior longevidade. 

Esse tipo de informação auxilia no planejamento de ações de conservação de espécies, permitindo-nos prever quais espécies serão mais ou menos afetadas em cenários futuros. Podendo prever as consequências de mudanças climáticas para variadas espécies, é possível tomar medidas mais direcionadas e efetivas para a proteção das espécies em maior risco. 

Amigos das aves

Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) atraído por frutas em um comedouro de jardim. Registro do acervo do OAMa

Você sabe o que é ser um amigo das aves? Certamente isso não inclui ter um passarinho na gaiola de casa e chamá-lo de “amigão”.

Amigo das aves, mais conhecido pelo inglês Bird Friendly, está relacionado a ações e iniciativas que promovem a conservação de espécies de aves nativas. Pode ser visto até como um estilo de vida, e já existem selos de qualidade que certificam programas e produtos que são “amigos das aves”. 

Algumas atitudes e ações, que estão ao alcance de cada um, podem garantir que levemos uma vida mais amigável às aves e, consequentemente, com mais respeito à biodiversidade. Para entender quais são essas atitudes, é importante primeiro considerar quais são as ameaças – principalmente as relacionadas às atividades humanas – que colocam as aves nativas em perigo. Algumas delas estão listadas abaixo:

  • Perda e degradação de habitat
  • Competição e predação por espécies invasoras
  • Caça e tráfico ilegal
  • Poluição – uso de pesticidas, poluição sonora, poluição de rios e oceanos
  • Colisão com prédios, linhas de transmissão energética e turbinas eólicas
  • Mudanças climáticas

Aí você pode pensar: “Mas DE QUE FORMA eu, como indivíduo, vou conseguir fazer diferença?”. Acontece que não agimos sozinhos. Nossas ações diárias podem parecer pequenas, mas, quando somamos com as de outros indivíduos que pensam e agem como nós, deixamos a escala do individual e passamos a atuar de modo coletivo. E o movimento coletivo tem influência nas mudanças em grande escala. 

Gralhas-do-campo (Cyanococorax cristatellus) registradas por Eduardo Schultz

Vamos listar aqui algumas atitudes que você pode ter – e, quem sabe, convidar mais alguém a também te acompanhar – e que são amigáveis às aves:

  • Enriqueça ambientalmente sua casa, seu bairro, sua área de trabalho. Plante flores e frutíferas: além de oferecerem alimento às aves, servem de abrigo, de área de descanso. Mesmo numa varanda de prédio é possível oferecer esse pequeno “oásis” para as aves. Você pode também fornecer bacias de água para o banho das aves. 
  • Se você tem um amigo felino, faça o possível para mantê-lo dentro de casa. É mais seguro para as aves, para seu gatinho e para você! Se você não tem como mantê-lo o dia todo dentro de casa, pode começar garantindo que ele passe a noite dentro de casa, evitando assim bastante da predação de ninhos. Os gatos são uma das maiores ameaças atuais às aves, e a culpa é inteiramente nossa, humana. Os gatos domésticos não são animais silvestres. A grande diferença é que a população de gatos domésticos não é limitada pelas mesmas regras de seleção natural dos animais silvestres. Nós cuidamos, alimentamos e fomentamos o crescimento populacional dos gatos, e, assim o número desses eficientes predadores está muito acima do que ocorreria numa população silvestre. O relacionamento gatos e aves é um assunto que merece uma postagem exclusiva. Por hora, vale ressaltar que manter os gatos domésticos dentro de casa é melhor para as aves, para os gatos e para as pessoas!
  • Não fomente o tráfico de animais silvestres, não coloque aves na gaiola. Muitas pessoas dizem que adquirem aves por acreditar que darão uma vida mais digna, cheia de amor e carinho, para elas. Mas os captores e traficantes de aves só continuam com a atividade porque há comprador. Acabando com o mercado de compradores, não há incentivo para que os traficantes continuem retirando as aves de seu habitat natural. Afinal, amor é ninho, nunca gaiola!
  • Procure conhecer os produtos que você consome. Dê preferência a produtos orgânicos, de agricultura familiar e diversificada. Repense o que e o quanto você consome, e avalie se você pode reduzir o consumo de alguma forma, desde a quantidade de energia elétrica e de descartáveis plásticos até o café e a carne. 

Aves, ciência e conservação 1

Resolvemos usar esse espaço de comunicação mensal com você para cada mês falar um pouquinho sobre algum trabalho que ligue aves, ciência e conservação.

Anacã (Deroptyus accipitrinus), uma das espécies focais no estudo de Figueira e colaboradores

Hoje vamos resgatar um trabalho realizado lá entre 2012 e 2014 por nossa co-fundadora e coordenadora geral, a ecóloga Luiza Figueira. Durante sua pesquisa de mestrado, realizada no INPA, Luiza estudou a ocupação de florestas amazônicas primárias (bem antigas, pouco ou não modificadas pelos humanos) e secundárias (florestas jovens, em regeneração) por psitacídeos (aves da família dos papagaios e araras).

Basicamente nessa pesquisa Luiza e seus colaboradores buscaram identificar, de certa forma, o valor das florestas mais jovens e modificadas para a ocorrência dos papagaios, araras e seus semelhantes.

A família dos psitacídeos é muito diversa, e enquanto algumas espécies ocupam cidades e se tornam até “pragas” por seus números explosivos, outras espécies são sensíveis às modificações ambientais e estão ameaçadas de extinção. Além disso, são espécies muito móveis, de deslocando por grandes áreas por dia (pouco se sabe sobre os padrões de movimentação destas espécies ainda). 

Nascer do sol em área de estudo - Florestas primárias e secundárias no PDBFF

De forma geral, os resultados da pesquisa mostraram que quase todas as espécies passavam tanto pela floresta primára como secundária sem fazer muita destinção entre uma e outra. Isso poderia dar uma – falsa- impressão de que a floresta secundária estava sendo ocupada da mesma forma que a floresta primária. Acontece que as florestas secundárias foram usadas majoritariamente de passagem, ou seja, as aves era detectadas em vôo, passando pela floresta. Quando analisada a ocupação parada, ou seja, o uso da área para alimentação ou qualquer outra atividade que mantenha a ave no local, florestas primárias foram mais utilizadas por quase todas as espécies estudadas. Em conclusão, esse estudo indica que, apesar das florestas secundárias e em restauração serem valiosas para a conservação de habitats e espécies, as florestas primárias são insubstituíveis para muitas espécies, que precisam dos recursos e estruturas presentes apenas nas florestas mais antigas.

Esse tipo de estudo é importante para nós guiar em decisões de manejo e conservação de habitats e área protegidas. Entender as necessidades das espécies e sua relação com o ambiente é primordial para a proteção da biodiversidade.

Esse estudo foi publicado no jornal científico “Biological Conservation” em 2015 com o título “Autonomous sound monitoring shows higher use of Amazon old growth than secondary forest by parrots“.

A espécie do mês de julho 2020 é…

Saíra-lagarta
Tangara desmaresti
Brassy-breasted Tanager

xplosão de cores! A Saíra-lagarta é uma espécie bastante comum aqui na Boa Vista, mas ainda assim foi uma surpresa ter capturado uma dessas na rede. Os bandos desta espécie, que chegam a juntar mais de 30 indivíduos por aqui, forrageiam mais frequentemente pelo alto das árvores, nas copas, ficando acima do nível das redes de neblina.

A Saíra-lagarta é endêmica da Mata Atlântica e ocorre em partes altas da Serra da Mantiqueira, Serra do Mar, do Caparaó, de Ibitipoca e do Caraça. Parece ser substituída pela Saíra-dourada em áreas de menor altitude na mesma região, mas ambas as espécies também podem ser encontradas juntas!