Estratégia de muda em aves da Mata Atlântica

Ao longo da vida, as aves seguem um ciclo de atividades, das quais são reconhecidas três principais: Reprodução, Muda de penas e Migração.

Para algumas espécies,esse ciclo é mais marcado e sazonal do que para outras. Algumas espécies – as chamadas residentes – não realizam migração e passam a vida toda em uma mesma área. Já a reprodução é uma atividade obrigatória para a sobrevivência de qualquer espécie, mas não para a sobrevivência de todos os indivíduos. A reprodução pode não acontecer em todos os ciclos da vida de uma ave e pode demorar anos, a depender da espécie, para acontecer pela primeira vez. Alguns indivíduos podem, inclusive, passar a vida inteira sem nunca se reproduzir! A muda de penas, porém, é uma atividade à qual nenhuma ave pode se esquivar ao longo da vida.
A muda de penas é um evento cíclico e padronizado em que a ave perde as penas velhas e penas novas crescem. A primeira muda da vida de uma ave é, na verdade, o crescimento de penas sem substituição, já que, como são as primeiras penas em desenvolvimento, não existem penas velhas para perder. Essa troca regular de penas velhas por novas é essencial, pois, com o tempo, o desgaste gera danos estruturais nas penas e suas funções (como regulação térmica, voo e atração) ficam prejudicadas. Uma ave com penas em mau estado terá problemas para manter a temperatura adequada, se movimentar, escapar de predadores, atrair parceiros e, consequentemente, para sobreviver.
Mas as aves não “escolhem” quando fazer a muda de acordo com a qualidade de suas penas no momento. A troca de penas acontece de forma cíclica e previsível. Os padrões de muda estão relacionados à ecologia, comportamento e filogenia de cada espécie.
Identificar e entender os padrões de muda de cada espécie ajuda-nos a compreender a ecologia e as relações evolutivas entre as espécies. Saber quando, como e quantas vezes uma espécie faz a muda nos permite identificar possíveis limitantes ambientais e temporais para as espécies estudadas.
O conhecimento sobre a muda das aves também serve de ferramenta para estudos demográficos. Reconhecendo em que estágio do ciclo de muda um indivíduo se encontra, conseguimos afinar a classificação de idade desse indivíduo. Há muitos anos, os padrões de muda e plumagem são usados para classificação de idade de aves pelo sistema de calendário anual nas regiões temperadas, onde a maior parte das espécies segue um ciclo de vida marcado e sazonal. Esse sistema, no entanto, não é adequado para espécies de áreas tropicais em geral, pois o calendário anual tem pouca relação com a fase de vida das aves nessas regiões.
Em 2010, um grupo de pesquisadores que trabalhavam com aves da Amazônia propôs um novo sistema de classificação de idade baseado no ciclo de muda das aves. Esse sistema, conhecido como WRP (em referência às iniciais do sobrenome dos proponentes, Jared Wolfe, Thomas Ryder e Peter Pyle), pode ser usado em aves de todo o mundo, mas, para isso, precisamos conhecer bem as estratégias de muda e os padrões de plumagem de cada espécie. E  2011 esse método foi refinado com colaboração de Erik Johnson.

No Brasil, a maior parte dos estudos e publicações sobre muda focava, até então, a fenologia da muda, isto é, em quando essa atividade acontece. Conhecemos bem pouco ainda sobre as estratégias e os padrões de muda das espécies de aves do país. A maior referência e conjunto de informações disponíveis hoje é para as aves da Amazônia. O livro Molt in Neotropical Birds: Life History and Aging Criteria, de Erik Johnson e Jared Wolfe, inclui dados e descrição sobre a estratégia de muda e os padrões de plumagem e classificações de idade pelo sistema WRP para quase 190 espécies de aves que ocorrem na região da Amazônia central.

O objetivo deste projeto desenvolvido pelo Observatório de Aves da Mantiqueira é identificar e categorizar as estratégias de muda, os padrões de plumagem e a classificação de idades pelo sistema WRP para as espécies de aves que ocorrem nas áreas de estudo do OAMa.

Para isso, usamos os dados coletados durante o monitoramento padronizado de longo prazo do OAMa acompanhados de muitas fotos. Os produtos finais deste projeto são artigos em periódicos científicos e um guia digital para ser compartilhado.