ocorrência explosiva e seleção e uso de habitat por aves associadas aos bambus

Os bambus – aquelas plantas altas, flexíveis, com caule oco e dividido em nós, utilizadas para a confecção de utensílios – são amplamente conhecidos no mundo. Apesar disso, muita gente não sabe que se trata de um tipo peculiar de gramínea com mais de 1.400 espécies diferentes. Só no Brasil temos mais de 220 espécies de bambus! O crescimento rápido e a formação de densos aglomerados de ramos eretos popularizaram os termos coletivos “taquaral” e “bambuzal” nas línguas tupi e portuguesa. Poucas pessoas, no entanto, já tiveram a oportunidade de ver bambus em floração e frutificação, porque seu ciclo de vida é muito particular. Algumas espécies podem levar décadas para florescer e frutificar, o que torna este um evento raro e especial. Depois de frutificar, o bambu aparentemente morre, dando espaço a grandes clareiras em meio a matas onde antes estavam.

Nas florestas da Mata Atlântica, onde espécies nativas de taquaras existem em pequenas manchas em meio às árvores e arbustos, as florações ocorrem em sincronia. Isto é, cada mancha da mesma espécie inicia seu processo de produção de flores e frutos mais ou menos no mesmo período, que se estende por alguns meses e tem limitada abrangência espacial. Para aquela população de bambus, esse evento significa o fim de uma geração inteira, que, como mencionamos, morre logo após a frutificação. Mas também marca o início da próxima geração que surgirá da germinação das sementes caídas e dispersas. Para a fauna, especialmente para alguns insetos, pequenos mamíferos e aves, a floração e frutificação dos bambus é um evento especial por representar uma rápida e grande oferta de recursos.

São conhecidas diversas espécies de aves que tiram proveito da oferta de sementes na frutificação dos bambus. Algumas dessas espécies utilizam o bambu oportunisticamente, como parece ser o caso do tiê-preto (Tachyphonus coronatus) e do trinca-ferro (Saltator similis), pelo que temos observado por aqui. Já outras espécies são especialistas de bambu, isto é, elas usam exclusiva ou majoritariamente os recursos dos bambus. Esse é o caso da cigarra-bambu (Haplospiza unicolor) e do pixoxó (Sporophila frontalis), dentre outras.

Em dezembro de 2019, os taquarais da RPPN Fazenda Boa Vista – onde a OAMa está sediada – começaram a florir. Durante o monitoramento de aves com redes de neblina, em janeiro de 2020, começamos a capturar a cigarra-bambu, que até então não havia sido capturada em nossas redes nesta área. Em março detectamos o pixoxó pela primeira vez aqui, quando alguns machos começaram a cantar incessantemente! O pixoxó é uma espécie considerada vulnerável à extinção, sendo uma de suas ameaças a captura ilegal por passarinheiros – gaioleiros.

Diante dessa oportunidade excepcional, iniciamos um projeto especialmente direcionado à interação das aves locais com a frutificação dos bambus na área de estudo do OAMa. Dentro deste tema, destacamos quatro interesses de investigação complementares:

  • Quais aves estão fazendo uso, oportunista ou obrigatório, desta frutificação de bambus locais?
  • Focando na cigarra-bambu, aqui presente em altíssima densidade, queremos aproveitar essa ocorrência explosiva para descrever suas atividades de reprodução e muda de penas.
  • Também usaremos os dados de anilhamento da cigarra-bambu para modelar o período de chegada, duração de estadia e partida do local, bem como estimativas de detecção e de densidade para esta espécie.
  • Combinando os dados coletados em pontos de escuta, observações de comportamento e anilhamento para cigarra-bambu e pixoxó, vamos comparar a ocupação, densidade e comportamento dessas duas espécies seguidoras de bambu. Esperamos jogar luz em características que tornam a cigarra-bambu uma espécie bem-sucedida e comum e o pixoxó uma espécie ameaçada.

Como parte deste projeto, temos realizado, desde o início de abril, a amostragem em 40 pontos de escuta na área da RPPN Boa Vista. Os pontos de escuta são feitos ciclicamente em intervalos de seis a dez dias, com repetições de dois dias por ponto. Para afinarmos as informações que temos sobre as espécies usando os bambus, suas atividades e condições físicas, ampliamos os esforços de captura-marcação-recaptura por meio do anilhamento com redes de neblina. Estamos realizando o anilhamento mensalmente e com quatro redes adicionais posicionadas focando os bambus.

Este programa especial de monitoramento conta com a dedicação diária da equipe residente do OAMa para a coleta e gestão de dados e de colaboradores voluntários no planejamento e divulgação científica, neste período de pandemia. Nas redes sociais do OAMa é possível acompanhar as novidades sobre a execução deste e de outros projetos.