As aves, além de muito admiradas por sua beleza e diversidade, são também invejadas por sua habilidade de voar. O voo é sem dúvida uma forma de deslocamento altamente eficiente e que permite cobrirgrandes distâncias em pouco tempo. Algumas aves são migratórias,isto é, passam parte do ano em um local e outra parte em outra área,e migram de uma área para outra duas vezes por ano. A distância entre áreas de vida de uma espécie pode superar 15 mil quilômetros!

Outras espécies são conhecidas como residentes, pois passam a vida toda em uma mesma área de vida, sem movimentos conhecidos de migração. O comportamento migratório está associado à reprodução em áreas temperadas. Isso porque grande parte das aves que se reproduzem na zona temperada precisam migrar para áreas com clima mais ameno após a reprodução, quando a temperatura na região começa a baixar. As espécies residentes são as que resistem à grande variação de temperatura nas zonas temperadas ou as que vivem em zonas tropicais ou subtropicais, onde a sazonalidade climática é menos acentuada.

Mas, como tudo na biologia, os padrões de movimentação das aves também não cabem em caixinhas perfeitamente separadas. Recentemente, alguns estudos têm descrito movimentações sazonais para espécies anteriormente ditas estacionárias e levantam a possibilidade de que os padrões migratórios de espécies que se reproduzem na América do Sul são mais complexos do que previamente imaginado. Um estudo de 2017 (Barçante et al.), por exemplo, aponta que diversas espécies que considerávamos residentes realizam migrações altitudinais. Migrações altitudinais são aquelas em que a mudança de área é caracterizada mais por uma variação de altitude do que por uma variação latitudinal ou longitudinal. Outro estudo também recente (Lees 2016) mostra o Caneleiro-enxofre (Casiornis fuscus) realizando uma migração antes desconhecida, com variação de bioma, em que parte da população estende sua distribuição da Caatinga para Florestas Amazônicas durante os meses mais secos.

 

Neste projeto utilizamos dados coletados por cientistas-cidadãos e salvos na base de dados do eBird (Sullivan et al. 2009) a fim de validar padrões de migração já descritos para espécies de aves brasileiras e procurar evidências para outras espécies que ainda não estão representadas na literatura. Os dados de ciência cidadã têm grande potencial de nos ajudar a identificar essas movimentações em larga escala pela capacidade de coleta de dados – em grande quantidade – por todo o globo.